Revista Panorama Editorial
Ano 3 – nº34 – set. 2007.
Artigo em homenagem ao poeta Bruno Tolentino, publicado na revista Panorama Editorial, revista da Câmara Brasileira do Livro.

A vida é curta; a arte é longa*

Sêneca dizia que a vida não é exatamente curta. Assim parece quando a desperdiçamos com bobagens que não nos permitem distinguir o bom do ruim. Ela é suficientemente longa quando bem empregada, quando se busca construir algo atemporal, eterno. É neste caminho que encontramos a poesia de Bruno Tolentino, vencedor de dois prêmios Jabuti e eleito intelectual do ano de 2003 pela Academia Brasileira de Letras. Claro que os títulos são desnecessários para ilustrar o seu legado poético, que é invariavelmente ignorado em função de uma vaidade idiota e viciosa. A maioria sequer analisou a sua obra – talvez nem estivessem habilitados para tanto – porque ele chamava a atenção ao que aconteceu no Brasil: “…o besteirol, se havia, estava lá longe, nos cantos. Hoje ele está no centro.”

Aliás, desculpem-me os pretendentes à poesia, mas Tolentino era o único poeta vivo no Brasil.  Um gigante, saudado por Auden, Ungaretti, Elisabeth Bishop e tantos outros. Claro que há divergências quanto a sua grandeza, principalmente a quem não sabe diferenciar prosa de poesia e vanguarda de vantagem. Ou quem, lá de baixo, acredite piamente que a poesia moderna não tem métrica. Mas isto se dá porque se tornou freqüente agregar valor somente às coisas moderninhas e com alinhamento político. Como se o que é bom fosse necessariamente novo e não existisse nada mais decente na vida do que a dedicação a uma revolução política.

Mas a quem sabe desviar os olhos da vulgaridade vê explodir o clarão atemporal da obra de Tolentino. Claro que a priori, as questões mais polêmicas o tornaram interessante. Afinal, sua indignação com o momento miserável da cultura brasileira e a pretensão de cortar algumas cabeças – mesmo sendo necessário curvar-se para alcançá-las – fez com que muitas mentes que perambulavam lá pelo mundo-como-idéia, trilhassem rumo ao mundo-como-mundo.

Sua obra também é composta de poemas em inglês e francês. Mas foi na Língua Portuguesa que Tolentino nos saudou com sua magistral poesia. Em Baladas do Cárcere, narra o poema inspirado em um detento chamado Ambrose, um dos que alfabetizou enquanto esteve preso na Inglaterra por andar cheirando o que não deveria. Já em As Horas de Katharina narra a estória de uma freira austríaca a caminho da santidade. Mas é em O Mundo Como Idéia que consolida quarenta anos de Poesia. É lá que se aprofundou no dilema essencial dos últimos séculos: essa forma como o ser humano pretende abolir o drama da existência, abstraindo-se da realidade e apegando-se em bobagens ideológicas.

 

In passim
O Mundo Como Idéia.

São Paulo: Globo, 2002. p. 250

Tudo vai-se acabando, tudo passa

do que é ao que era. É tudo mais

ou menos uns vestígios de fumaça

no espaço do que deixas para trás.

E tudo o que deixaste ou deixarás

de manso ou de repente, sem que faça

diferença nenhuma no fugaz,

é assim como a garoa na vidraça:

 

intimações de lágrima delida.

Não valeu chorar nada. Nem te atrevas

a lamentar-te à porta da saída,

 

pois pouco importa a vida como a levas,

que ela te leva a ti, de despedida

em despedida, a uma lição de trevas.

 

Tolentino era um professor sem cátedra, o tribuno sem tribuna, o lutador sem ringue, o soldado que não morreu em batalha. Morreu de tanto esperar a chance de lutar, diz o filósofo Olavo de Carvalho. E a luta é a mesma apontada por Mário Ferreira dos Santos: “…pelo nosso ciclo cultural, fortalecer os aspectos positivos para impedir o desenvolvimento do que é negativo”. Mas tal luta parece já ter perdido o sentido. A invasão vertical dos bárbaros de Rathenau já se efetivou. Foi-se um dos últimos guerreiros.

___________________________

*Hipócrates, Aforismos, 1,1.

Seu IP:
38.107.179.239

ARTIGOS RELACIONADOS:

  1. Diálogos
  2. Estilística: um soneto de Machado de Assis

Comentário

Comente se for capaz!




*
To prove you're a person (not a spam script), type the security word shown in the picture. Click on the picture to hear an audio file of the word.
Click to hear an audio file of the anti-spam word

Gilad Shalit



O soldado israelita Gilad Shalit foi libertado, após cinco anos e quatro meses refém na faixa de Gaza.

Um acordo entre Israel e o movimento radical Hamas, através de mediação egípcia, permitiu a sua libertação em troca de mil presos palestinos.

Shalit tinha 19 anos quando foi capturado a 25 de junho de 2006 junto à faixa de Gaza por um comando palestino que integrava elementos de três grupos armados, incluindo o braço armado do movimento radical Hamas, as brigadas Ezzedine al-Qassam.
Rodney's Search Widget plugged in.