Sep
10
Ditadura da difamação
Postado em ligeiras impressões

Paris, 9 de março de 1949, vigésima audiência do Processo de Kravtchenko.
Parte final da exposição oral do advogado de acusação, doutor Georges Izard:
– Qual foi mesmo o país que nomeou os carrascos de Buchenwald e de Ravensbrück para altos postos de polícia na Prússia oriental? Qual é mesmo o país onde se torna “um inimigo do povo” qualquer pessoa que faça uma simples crítica? Quem são esses serviçais do Kremlin que utilizam a todo o momento a palavra “traidor”? (ele lê) Disseram: “Schumann, Moch e Mayer são traidores”. Seria isso antissemitismo?, três judeus na mesma frase; isto não soa estranho? Mas continuam: “Léon Blum também é um traidor!”. Veja, senhor Blumel (1), vossos amigos de hoje chamam de “traidor” o vosso amigo de ontem. O que tendes a dizer? (Blumel, calado, faz um gesto de quem nada pode fazer).
O comunista Coutarde ameaçou os socialistas dizendo-lhes que um dia, o povo “livrar-se-á deles como o fez com Petkov”(2)… Pois bem, mais uma vez o presidente Durkhein é chamado de hipócrita pela Gazeta Literária de Moscou. Enfim, tenho dezenas de jornais e revistas comunistas que imprimiram por toda a parte a mesma coisa: “traidor, traidor, traição, dólares, vendidos…”. Importante lembrar que vocês também dizem que Paul Nizan (3) é um traidor apenas porque, homem honesto, jamais aceitou o Pacto Germano-Soviético.
Por outro lado, temos o livro de Kravtchenko que nos explica bem esses métodos e quais suas origens. É uma infelicidade notamos que são práticas atualmente adotadas pelo Partido Comunista Francês.
(…)
Por tudo isso eu peço ao Tribunal para que não os deixem partir como chegaram! Eles devem ser punidos com todo o rigor dessas leis que tanto prezamos, afinal, fundamentam a nossa liberdade. De fato, eles também usufruem desta liberdade, mas extrapolam-na. E se continuarmos a permitir isso, em breve uma ditadura da difamação estabelecer-se-á em nosso país.
___(1) Blumel era um dos advogados de defesa. Jovem comunista com pretensões políticas, não hesitava em renegar o velho amigo, Blum, não mais apreciado pelo governo soviético.
(2) Nikola Petkov, político búlgaro que liderava o movimento contra a coletivização em seu país, foi julgado e executado no pós-guerra, quando os soviéticos tomaram o poder na Bulgária.
(3) Paul Nizan, escritor francês, embora amigo de Sartre e ferrenho comunista, não engoliu o Pacto Ribbentrop-Molotov, de agosto de 1939.
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