Aug
23
A arte que reflete a vida
Postado em ligeiras impressões, literato
Nas últimas três décadas, as artes serviram tão-somente para fins políticos. Deposto o Regime Militar, foi preciso uma mudança conceitual para justificar, portanto, a existência de um artista. Assim, a arte política, graças a um giro linguístico, virou arte engajada. Tal mudança se fez somente pelo fato de não ser mais preciso derrubar um governo, mas incluir os excluídos numa nova percepção de mundo. A questão é que fora sonegado o sentido mesmo da cultura, nada mais do que a expressão natural de um povo, daquilo que ele percebe de si.
A arte que não porta a realidade vivida é ininteligível, pois não diz respeito ao cotidiano; é um discurso vazio em que cada palavra perde a sua significação habitual. Assim, para Ortega y Gasset, trata-se de uma perspectiva oposta à que usamos na vida espontânea e, ao invés da ideia ser um instrumento com que pensamos um objeto, fazemos dela o próprio objeto do nosso pensamento.
Evidentemente, um artista não deve sair por aí a olhar para o invisível e procurar algo que ninguém vê, aliás, que sequer existe. Deve apenas expressar, da melhor forma e com mais conteúdo possível, aquilo que todos podem perceber se houver uma interligação de fatos inconexos que, conectados, iluminam nossa inteligência e, como um clarão atemporal, exclarece, obviamente. Portanto, comunicando o que todos são capazes de enxergar, mesmo que não seja possível uma explicação conceitual ou objetiva, cria-se a memória. Compartilhar desta memória é criar uma tradição a ser cultuada. Northrop Frye chamou isso de “mito de interesse”, algo necessário para que um povo, uma sociedade ou uma nação fique de pé, reconheça-se como uma unidade.
Deste modo, cultura tem a ver com História. No entanto, mal chegamos a sedimentar a nossa e já adentramos no furacão das ideologias importadas, que sequer nos dizem respeito, apenas por um desejo de independência que, contraditoriamente, depende de um colonizador, de que haja um cérebro que pense tudo por nós. Não à toa temos hoje um Estado a quem delegamos tudo somente porque desaprendemos a resolver problemas por conta própria; desaprendemos a olhar para a realidade e expressar, bem ou mal, o que se vê. Arrancamos os olhos da cara para vivermos como cegos a necessitar de guias para chegar ao outro lado da rua. E se já não podemos ver, somos forçados a acreditar no que nos dizem, acatar orientações daqueles que não nos conhecem, senão naquele exato momento de atravessar a rua.
Talvez esta metáfora seja inoportuna, afinal, um cego pode enxergar nossos problemas melhor do que muitos outros que vivem a olhar para o invisível tentando descrever nada mais do que ilusões. O problema se dá quando a estes, contrariados, resta apenas exaltarem-se imaginativamente como gênios incompreendidos. Não, são apenas loucos! E o conceito de gênio próximo da loucura expressa apenas um complexo de inferioridade do artista que não consegue, senão por um auto-engano, definir-se a si próprio.
Em outras palavras, como já perguntou Ezra Pound: você se interessaria pela obra de um homem cuja percepção de si mesmo seja abaixo do nível comum? Na resposta está uma explicação do atual desinteresse pelas artes que, em verdade, não é arte de forma alguma. É apenas uma vontade de abster-se da realidade para criar um mundinho melhor em que suas inutilidades sejam remuneradas com dinheiros públicos.
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Comentário
2 Respostas para “A arte que reflete a vida”
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Muito interessante. Embora não tenha estudado o Ortega y Gasset nem o Northrop Frye, concordo com essa perspectiva.
Ademais, que é a arte senão uma forma a mais de comunicação, em que além do conteúdo é possível transmitir também, com maior facilidade quanto melhor a técnica do artista, sensações que não se explicam com palavras?
Há artistas de grande técnica e conteúdo pobre, como talvez haja os que têm o contrário (que eu me lembre, nunca os vi). Mas quando ambos – conteúdo e técnica de expressão – se unem, temos um artista de qualidade, algo como Machado de Assis em sua primeira fase. Dali para virar gênio, já são outros 500.
abs
Passou um erro de português no meu comentário. Não vou corrigir, nem dizer qual é. hehehe
abs