É bom que a leitura de uma obra traga em si uma analogia à experiência do leitor. E mesmo que esta alusão seja simples, há sempre de criar uma referência às coisas humanas que se sustentam na experiência da leitura. O intuito é de que a obra apresente ao leitor dramas humanos no mais alto nível, para que seja possível uma reflexão sobre a vida e todas as suas possibilidades.

Assim, é importante que haja sempre um apelo à experiência real do leitor, fazendo-o comprovar ou impugnar – até mesmo compartilhar – deste mergulho à experiência imaginária de um livro. Por esta razão, a leitura constante de grandes obras, cujas estórias levam aos mais altos graus da experiência humana, ajuda na ascensão intelectual, individual e coletiva. E somente por isto já seria necessário haver uma espécie de repositório de experiências imaginárias ou ficcionais que possam oferecer uma base comparativa com a experiência real. Esta é uma das funções da literatura, que Ezra Pound conceituava como “linguagem carregada de significado ao mais alto grau possível”. Uma cultura portadora de uma diversidade de experiências imaginárias, composta numa tradição literária, eleva-se com a permutação de experiências individuais conhecidas num imaginário coletivo, fazendo com que um povo possa refletir sobre a própria identidade e mantenha um contato mais íntimo com a sua própria experiência real.

Para dar um exemplo, o crítico canadense Northrop Frye, analisando a estrutura linguística usada por Dante na Divina Comédia, concluiu que tal estrutura correspondia a símbolos lógicos do próprio cristianismo que davam base ao pensamento comum da época. A estória contada em versos está disposta em símbolos literários, ou seja, há uma ligação íntima dos versos com a sua estrutura linguística, que por sua vez, liga-se a um imaginário simbólico comum. Talvez, pelo fato de termos perdido um contato mais íntimo com a tradição cristã, tenhamos hoje uma dificuldade imensa para compreender a Divina Comédia, algo que não acontecia com um cidadão comum na Idade Média.

Neste aspecto, a literatura é, portanto, uma forma de manter intacto o laço que une um povo – e é essa união que dá razão à formação de um país – através da integridade do idioma, além de marcar na memória de uma cultura toda a experiência individual e coletiva expressa na sua história, nos seus mitos e nos seus heróis.

Enfim, a literatura tem um caráter orgânico, um tipo de tradição que deve ser absorvida para que se venha a somar a ela, explorando possibilidades ainda não exploradas, dando continuidade àquilo que já foi feito dentro da arte de escrever.

Mas como é possível forjar uma tradição literária? Antes, parte-se do idioma, e não podemos renegar a tradição cultural portuguesa que vem envolta na nossa língua. Tampouco, a própria história de quem nos formou como nação ainda antes de pensarmos numa independência.

A literatura é a guardiã do idioma e também da cultura de um povo. Somente através dela é possível legar à posteriadade todos os conhecimentos adquiridos nos tempos anteriores, afinal, o conhecimento também se contrói organicamente, pois só se aprende ou se descobre a partir daquilo que já se conhece.

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Comentário

Uma Resposta para “Sobre a tradição literária”

  1. Raphael em August 25th, 2010 7:20 am

    Adiciono ainda o seguinte:

    As experiências narradas em literatura não precisam ser exatamente as mesmas que as minhas do dia-a-dia em sua aparência, mas em sua essência. Desse modo, não é preciso se passar por professor de javanês para ter a mesma experiência que o personagem do conto, a saber: a de enganar alguém em benefício próprio.

    Essa capacidade mesma de relacionar as experiências – “com o personagem foi a aula de javanês, comigo é tal coisa” – é que forma uma grande base de matéria-prima (observações de si e do outro) que servirá para as reflexões e para a formação de conhecimentos, que dali em diante vão auxiliar em minha conduta.

    Por que digo isso? Porque ler 5 livros por semana não significa absolutamente nada se a mente não o faz ativamente.

    abs

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Gilad Shalit



O soldado israelita Gilad Shalit foi libertado, após cinco anos e quatro meses refém na faixa de Gaza.

Um acordo entre Israel e o movimento radical Hamas, através de mediação egípcia, permitiu a sua libertação em troca de mil presos palestinos.

Shalit tinha 19 anos quando foi capturado a 25 de junho de 2006 junto à faixa de Gaza por um comando palestino que integrava elementos de três grupos armados, incluindo o braço armado do movimento radical Hamas, as brigadas Ezzedine al-Qassam.
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