Ainda busco uma melhor ideia para definir a utilidade do teatro. Mas, definitivamente, é bastante fácil encontrar um motivo para a sua inutilidade. O ator fala, dirigindo-se às mãozinhas tensas com uma voz ressonante, movimentando-se bruscamente de forma padronizada e, pior, com uma postura pedante, ridiculamente chata. Este é atualmente o responsável pela transição do texto ao público, aquele que tem a função de materializar uma personagem cuja vida é limitada pelo papel, sem forma, particularidades ou uma integral vida psíquica.

Mas o que realmente torna o teatro chato, pedante e inútil? Simplesmente a atitude de subestimar o público. Ainda tenho por certo que as tradições e costumes expressos principalmente nas artes, têm pelo menos a função primordial de educar. Mas isto não quer dizer que o público deva ser tratado como alunos da pré-escola. Cada pessoa sentada numa daquelas cadeiras confortáveis tem uma história, tem uma vida e, principalmente, um cérebro – além de, é claro, ter pagado o ingresso. Cada uma dessas pessoas, à sua medida, é capaz de contemplar o que vê no palco e fazer alusões com tudo aquilo que ela vê na realidade. Não está alí para um confronto, quer apenas uma reflexão. No entanto, o teatro moderno quer confrontar, quer impor, doutrinar. O texto pode ser um clássico, mas no palco torna-se apenas uma visão limitada de um diretor que quer se impor como um tipo de inconsciente do autor, que busca revelar significações misteriosas e a natureza dos sentimentos de onde brotaram a obra. O complexo causado pela impossibilidade de conhecer o autor e sua obra melhor do que o próprio autor, propõe uma indigna fuga na invenção. A neurose é tamanha que passa-se a acreditar em algo que se estivesse em algum lugar, residiria apenas num espaço inóspito e esquizofrênico. Aí a transição do texto ao público já se perdeu completamente. No seu lugar, constrói-se uma ponte para levar do texto às loucuras pessoais de um diretor e seus sentimentozinhos. Neste caminho obscuro, a expressão artística do teatro nada mais difere de uma música sertaneja: o homem que sofre por uma inutilidade qualquer, mas este sofrimento é irreal, uma invenção. Pelo menos esses sertanejos hi-tech inventam inutilidades que existem em algum lugar, não abstrações ideológicas que só fazem sentido a doentes mentais.

Enfim, a inspiração poética só pode ser encontrada fora de si, percebendo a realidade  - ou um fragmento dela mesma –  que está e sempre esteve inserida no mundo, independente da existência de quem a vê. Uma obra, por consequência, deve ser pensada visando expressar uma ideia do real. Mas o que se vê nos palcos altualmente – e tem se tornado um vício entre escritores e poetas – é a expressão de um sentimento, não de uma ideia. E, convenhamos: quem, numa época tão esquisita, está interessado em conhecer os sentimentos mais íntimos, sombrios e obscuros de alguém que sequer conhece?

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Comentário

2 Respostas para “Sobre o teatro”

  1. srta T. em March 30th, 2010 3:30 am

    Milorde,

    Meu descontentamento com os “teatros” que tenho frequentado é similar. É como se eu tivesse que me dispor a levar uma bofetada na cara – aleatória – simplesmente porque alguém (que não eu) deu a cara a tapa. Algo do tipo. Sem menosprezar a preparação do ator (porque eu passei por isso e meu corpo não passou batido). “Esvaziar o movimento de significado”, sempre lembro. E como isso é difícil. Talvez falte vida, talvez o que falte é corpo-jogo: dança. Eu fico com a dança – e com um grupo de floripa que talvez expresse minha vontade de palco (ver). Mas o que me irrita, no fim no fundo mesmo é o texto-grito, ou atores, sem preparação vocal – ou seria isso também o novo teatro? Ridículo, absurdo, impagável. Teatro safado.

  2. Marcelo Sampaio em March 30th, 2010 9:15 pm

    Muito bom o texto.

    As minhas experiências enquanto espectador sempre foram insatisfatórias (talvez esteja cometendo alguma injustiça pontual, mas não invalida a maioria), mas nunca frequentei assiduamente o teatro.

    Acredito que um dos problemas seja a falta de parâmetros para se reproduzir a peça com a concepção dada pelo autor. Não há, junto com os textos de Sófocles (para citar um), extensas explicações sobre a forma correta de representá-lo. Isso abre um infinito de possibilidades para as posteriores tentativas, sejam elas boas ou ruins. Quanto aos atores, não posso dizer muito. Parece-me que é isso que diferencia o bom ator do mau: a capacidade de ser a personagem que deve “encarnar”. Talvez esteja sendo duro e exagerado, mas não diferencio, aqui, a falta de talento da submissão ao diretor.

    De toda forma, é motivo de reflexão para que haja uma revisão na estrutura da representação artística, sob pena de ser abandonada por culpa exclusiva de seus promotores.

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Gilad Shalit (Nahariya, 28 de agosto de 1986) é um soldado israelense capturado em Kerem Shalom na Faixa de Gaza por militantes palestinos em 25 de junho de 2006.

Gilad Shalit é refém do Hamas há mais de mil dias.
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