Feb
13
O Caso Kravtchenko
Postado em divinas inspirações

Do livro, L’Affaire Kravtchenko, de Nina Berberova:
História do processo – Um dos membros da Comissão Soviética de Compras à Crédito enviado aos Estados Unidos em 1943, havia decido não voltar para a União Soviética. Em abril de 1944 ele rompeu com Moscou e depois escreveu e publicou um livro onde expunha as razões desta ruptura. Ele falava da vida na URSS, da política agrícola de Stalin, dos tecnocratas e dos velhos bolcheviques.
(…) O jornal Les Lettres Françaises iniciou uma campanha difamatória contra ele, insultando-o e insinuando que o autor do livro era um fascista hitleriano. Contudo, para muitos, e para mim mesma, o cerne da questão estava na existência de campos de concentração na União Soviética, que finalmente chegava ao conhecimento de todos e recebia uma larga divulgação.
24 de janeiro de 1949.
Declaração de V. A. Kravtchenko no primeiro dia de julgamento
“– Sinto-me feliz de estar na França! E começo por me declarar o autor do livro que deu início a este escândalo. A América salvou minha vida e, agora, eu solicito a um tribunal francês que limpe a minha reputação. Eu não desejo apenas que meus caluniadores sejam condenados, mas também os nomes que lhos inspiraram. Deixei o meu país que amo profundamente, lá ficaram meus familiares e amigos e já não sei o que aconteceu com eles. Antes de romper com o regime soviético, eu nunca tinha deixado o meu país, não conhecia nenhuma língua estrangeira e não tinha ninguém ao meu lado. E, portanto, assim o fiz porque era meu dever dizer ao mundo todo o que meu povo está sofrendo.
Foram esses sofrimentos, junto com a minha decepção pessoal e as atrocidades cometidas pelo regime que me levaram a tomar tal decisão. Não fui eu quem decidiu, mas foi a minha vida que o fez por mim.
Milhões de pessoas desejam fazer o que eu fiz. Entre as testemunhas enviadas a este processo pelo Politburo[1], haverá pessoas às quais eu conheço, que eu conheci: eles pensam a mesma coisa que eu, mas eles deixaram reféns em Moscou; suas mulheres, seus filhos. Por isso eles não dirão nada.
O que fiz, fiz pelo povo russo e pelo mundo inteiro, para que a humanidade saiba que a ditadura soviética não é um progresso, mas uma barbaridade.
Eu sou filho e neto de trabalhadores. Eu mesmo sou um trabalhador. Eu subi as escadas da hierarquia soviética e, agora, posso-lhes dizer:
Vocês estão usurpando a revolução.
Vocês estão impondo o medo ao povo russo.
Vocês os estão sufocando pelo terror.
Vôces estão roubando-lhes a vitória sobre o inimigo.
Vocês estão acenando uma ameaça terrível e sem precedentes de uma nova guerra.
(O intérprete traduz o discurso Kravchenko. A sala o escuta com a respiração suspensa).
– Vocês estão impondo o medo a todo o mundo, são uma ameaça à paz! É isto que eu quero dizer ao povo francês: o comunismo é seu inimigo. Acordem antes que seja tarde demais. Os mestres do Kremlin são os Caim da classe trabalhadora. Lutem por uma vida melhor por meios democráticos e não pelos métodos comunistas. Trabalhadores, camponeses, intelectuais da França, os sacrifícios do meu povo serão em vão se vocês não acreditarem no que digo!
Então, Kravtchenko passa a falar sobre o processo:
– O propósito dos meus inimigos é o de me arrastar para a lama. O objetivo da minha vida é a luta contra o comunismo. A vileza é o método habitual do Politburo. O meu livro é um sucesso e por isso eles querem me sujar com calúnias.
Os comunistas franceses são servos do Kremlim. Eu jamais escrevi contra a França, mas tenho escrito contra os seus mestres. Quando eu estava na Rússia, esses mesmos professores me elogiaram, exaltavam-me, eles mesmos me enviaram para o exterior. Agora que eu rompi com o regime deles, dizem que eu sou um traidor, um ladrão.
Na Rússia é impossível eles me caluniarem, pois muita gente me conhece. Em quatro anos a imprensa soviética não me dedicou uma só palavra, mas aqui, ao contrário, eles ordenam que eu seja arrastado para a lama. “Sim Thomas” não existe, é apenas um engodo, e o Kremlin está agindo através de seus escravos, que são os comunistas franceses. Para essa gente, a América é apenas Wall Street; a mim é uma grande democracia.
Se eu sou pago pelo serviço secreto americano, que eles provem! Eu sou um traidor? Sem problemas, porque neste caso estou em boa companhia: Léon Blum, Bevin, Attlee, Truman[2], todos eles acusados de traição. Somente Thorez, Togliatti[3] e Stalin são homens honestos.
Voltando a falar sobre o seu rompimento com a URSS, Kravchenko continua:
– Isso aconteceu em abril de 1944. Se eu fosse um fascista ou nazista, os americanos me teriam entregue à União Soviética. Eu era e continuo sendo um patriota russo; enquanto o meu país estava em guerra (e, embora ele tenha sido um aliado dos Estados Unidos), eu sempre me recusei a divulgar para a imprensa americana qualquer informação sobre a sua situação econômica ou militar. Em 1940, enquanto eu lutava no front, Thorez refugiava-se em Moscou, sob a proteção de Stalin.
(Neste momento, o sr. Nordmann, advogado de Wurmser, exige um pouco de respeito ao grande homem e político francês. A plateia explode em riso.)
Naquela época, Stalin era amigo de Hitler, e os comunistas franceses aprovavam porque nunca estiveram a serviço do povo francês, mas somente a serviço de Moscou. Dizem, hoje, que os jornais alemães serviram-se dos meus artigos. Mas eram dos discursos e dos artigos de Molotov[4] que eles publicavam em 1939-1940!
Que não me acusem de exagerar quando falo do sistema soviético. Lembrem-se que muitos acreditavam ser um exagero dizer que havia campos de extermínio e fornos crematórios na Alemanha nazista. Ora, era a mais pura verdade. Eu falo do sistema sem confundir com o povo russo porque os Stalin e os Molotov são transitórios. A Rússia viverá eternamente. (Movimentação no tribunal).
Os senhores verão as minhas testemunhas. Eles são apátridas. Eles abandonaram tudo, escolheram a fome. Eles sabem que seus familiares serão torturados, mas escolheram dizer a verdade. Eles amam seu país e dirão o porquê estão aqui. Como eu, vieram avisar o mundo do perigo que se aproxima. Eles, como eu, estão prontos para morrer na luta. E esta luta é tudo o que eu quero!”
Kravtchenko diz mais algumas palavras sobre seus recursos financeiros. O julgamento custa caro, mas o livro lhe rendeu dinheiro, é através dele que ele pode pagar todas as suas despesas. Não recebeu um centavo das autoridades americanas. Seu editor está presente e pode confirmar que o livro foi traduzido para vinte e dois idiomas. E, então, termina seu discurso com essas palavras:
- Onde estão as forças do bem? Onde estão as forças do mal? Isso são os senhores que devem decidir.
[1] – Politicheskoe Byuro, que fora contraído para Politbyuro; Politburo. Era o comitê executivo do Partido Comunista Russo.
[2] – Léon Blum, socialista e judeu, fazia parte de uma minoria de deputados que se recusaram a conceder plenos poderes ao Marechal Philippe Pétain. Ele se recusou a deixar a França após a ocupação alemã em 1940. Foi detido e julgado sob acusação de traição. No julgamento ele fez uma defesa oral tão brilhante, acusando militares e políticos franceses alinhados ao nazismo, que constrangeu o regime de Vicky. Foi, então, deportado para a Alemanha, onde ficou preso no campo de Buchenwald até 1945; Ernest Bevin (1881-1951) foi um líder sindical britânico, acusado de traição por aceitar o cargo de Ministro do Trabalho no governo Churchill após a Segunda Guerra Mundial; O inglês Clement Attlee e ex-presidente americano, Henry Truman, também foram acusados de traição por sentarem na mesma mesa com Stalin e negociar a divisão da Alemanha, na Conferência de Postdam em 1945.
[3] – Maurice Thorez era o líder do Partido Comunista Francês. Tinha o apoio irrestrito de Stalin, a quem foi fiel até o fim de seus dias. Em retribuição, seu nome fora dado a uma cidade na Ucrânia (Torez), e um instituto de línguas estrangeiras também com o seu nome fora criado em Moscou; Palmiro Togliatti fundou com Antonio Gramsci o Partido Comunista Italiano italiano em 1921. Entrou para o Comitê Executivo da Internacional Comunista, da qual foi Secretário entre 1937 e 1939. Em 1944 retornou à Itália foi eleito Secretário Geral do Partido Comunista Italiano.
[4] – Viatcheslav Mikhailovitch Molotov, foi um diplomata e político da União Soviética. Sua mais importante participação na história mundial foi a assinatura do Tratado Molotov-Ribbentrop, o pacto de não-agressão firmado entre a União Soviética e a Alemanha nazista em 1939.
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Diogo
É impossível não sentir um nó na garganta lendo: “Deixei o meu país que amo profundamente…”. Temo que em breve esta seja a solução aos brasileiros, que não aguentam mais a podridão cultural do país.
Excelente iniciativa a tua de traduzir este testemunho da verdade. Ações assim confirmam que não foi e não é em vão o sofrimento de tanta gente sob os regimes comunistas, espalhados pelo mundo.
É pela verdade que devemos lutar e por ela,como diz Kravchenko,dispostos a morrer!
Teu blog, sem dúvida, é um indício de onde podemos encontrar as forças do bem.
Abraços,
Mariana