Oct
16
Educar é elevar o espírito
Postado em em busca de sentido
A busca do conhecimento é algo inato ao ser humano. Ninguém conscientemente prefere viver nas trevas da ignorância podendo facilmente acessar a luz da inteligência. No entanto, o estudo requer a identificação de um chamado interior, para que tudo aquilo que se queira aprender passe a ter um contexto adequado a cada um de nós. Nada mais é do que encontrar uma razão pela qual estudar um determinado assunto se torne importante em nossas vidas.
Mas se uma mudança de postura começa dentro de nós mesmos, o segundo passo é mudar o nosso ambiente – seja restaurando o mínimo de razão nele; seja abandonando-o de uma vez por todas. E, como se fossem círculos concêntricos, essas mudanças de atitude devem se expandir, criar um vínculo entre as pessoas, num sentimento mútuo de que é realmente possível tornar menos insuportável a nossa vizinhança, o nosso bairro e, por que não dizer?, a nossa cidade, o nosso país.
Qualquer ensinamento parte de precisas definições. Os conceitos fundamentais de um assunto são o que dão suporte ao que se eleva como conhecimento. Por outro lado, há sempre uma tentação irascível de saltar diretamente às tendências mais modernas, sem a preocupação de uma formação anterior. Também não seria ousadia dizer que, num empenho em buscar um pensamento estritamente novo e original, pode-se acabar por recusar ou esquecer uma tradição de pensamento já existente. Longe de negar o que ainda se possa fazer do futuro, mas nos privarmos do que possuímos de forma efetiva em sólidos fundamentos, reinventando uma cultura sem antes herdarmos as tradições existentes que expressam realmente o que somos, é repetir a experiência de formação de uma classe intelectual que não enxerga além de seus cacoetes sem sentido.
Quando falamos em cultura, devemos abarcá-la em todas as suas possibilidades para definirmos bem o motivo que nos leva à manutenção de uma tradição. Grosso modo, e para não me estender demais neste tema que é, em verdade, o pano de fundo do que pretendo discutir aqui, toda uma tradição e seus costumes dedicam-se à unificação. É um elo entre um povo ou nação, aquilo que o torna único, que cria vínculo entre pessoas. Assim, tais tradições e costumes expressos principalmente nas artes têm apenas uma função: educar.
Certamente os costumes e tradições vão evoluindo junto com uma cultura universal. Note que universal aqui é usado como uma ligação com o Eterno. Todavia, na ânsia de buscar uma cultura popular, tolera-se ignorar uma ligação – ou diálogo – com essa cultura universal. Não criamos a literatura, tampouco o teatro ou a pintura. Tratam-se de formas universais de expressão cultural. E ignorando este diálogo cria-se o que convencionalmente chamamos de crise. Segundo o filósofo Mário Ferreira dos Santos*, a palavra grega crisis significa separação, abismo. Onde há crisis, há uma separação, e separar é abrir distância entre pares. Mas como surgiria a ação de separar se não existisse aquilo que une? Eis aqui o ponto de vista acerca do coração desta crise: qual o elo entre os brasileiros? O que nos une?
Nesta direção, observamos o fato de que habitua-se a memória para absorver somente alguns adornos, pouco se ocupando com os valores mais intrínsecos. Porque mesmo uma tradição ou costume pode ter qualidades nefastas. Na civilização Maia, para dar um exemplo, era costume extrair o coração de pessoas vivas em sacrifício aos deuses, enquanto batucavam-se ritmos ritualescos. E creio eu não haver um ser vivo não-dependente de haloperidol que se entusiasme na presença de tão infausta tradição.
O que então devemos resgatar culturalmente? Tudo aquilo que possa se conectar com o Eterno, livrando-se, sem nenhuma culpa, daquilo que é lutoso, imprestável e que fatalmente nos diminui. Educar é elevar o espírito. E só é possível uma ascensão quando olhamos para o alto, quando buscamos acessar o que nos parece inatingível. É uma forma de superação que traz consigo a possibilidade de crescimento, seja como indivíduo; seja como nação.
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* Santos, Mário Ferreira dos. A Filosofia da Crise, São Paulo, Editora Logos, 1956.
Comentário
4 Respostas para “Educar é elevar o espírito”
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Grande Diogo! Excelente post!!
Acho que a capacidade de estudo é mesmo o que engrandece os povos, e isso implica, como falou, a absorção da herança cultural, com os ajustes necessários, e a expansão dos conhecimentos para além dos limites da época e lugar. É uma norma ética, então, seguir essa linha de conduta: a da exaltação do conhecimento na vida individual rumo à capacitação, ao cultivo da sensatez e da generosidade a fim de ser possível atender ao chamado dessa pátria de heróis que, como um todos os momentos críticos, reclama o empenho de seus filhos no nobre labor da honra, da glória, da honestidade e da liberdade. E não há homens livres sem que as suas inteligências estejam livres.
Continue estudando e divulgando suas conclusões e conselhos. É uma forma de servir à terra que nos viu nascer. Um abraço do seu amigo!
Brilhante. Mas é triste saber que hoje em dia as pessoas prefiram deliberadamente e conscientemente viver nas trevas da ignorância. São raros os que se dispõe a acessar a luz da inteligência.
Muito bom. Quem pretende evoluir deve saber que há dois caminhos imprescindíveis e complementares: o da tomada de consciência de tudo (bom ou ruim) que veio antes e o da construção de um ideal cada vez menos sujeito às paixões e ilusões e mais às reflexões e sentimentos sinceros.
Um abraço!
Diogo
Gostei muito do que li!
É sintoma comum da crise que o Brasil enfrenta, encontrarmos os adornos carnavalescos, futebolísticos, e todo a pândega afrodescendente, como sendo a nossa mais alta tradição cultural. É o que ensinam nas escolas, é o que se vê nas ruas, é o ibope dos programas de TV.
Felizmente, de tempos em tempos nasce algum brasileiro que desmente a versão oficial, apontando à verdadeira educação que deve fundamentar o futuro do país. Os Andradas, Machado, Corção, Mário Ferreira, e tantos outros, legaram ao Brasil capítulos de uma tradição universal, algo que faz valer a pena lutar pela restauração da cultura brasileira.
Educar buscando elevar o espírito é uma das bases da educação cristã- tão esquecida e banalizada hoje em dia . Em 1 João 2: 15-17 encontramos: ” Não ameis o mundo nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai. Porque tudo o que há no mundo — a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho da riqueza — não vem do Pai. Ora, o mundo passa com suas concupiscências; mas o que faz a vontade de Deus permanece eternamente”.
É isso meu caro Chiuso, Cristo já tinha dado o puxão de orelha: ” Não te admires de eu te haver dito: deveis nascer do alto!”. Teu texto só reforça a bronca.
Abraços de tua amiga.