Um texto ruim. No entanto, uma boa luz que revela, no palco, um cenário verdadeiramente incrível. Mas, de fato, o texto é ruim. Poder-se-ia tomar refúgio nos clássicos. “Mas os clássicos são ininteligíveis”, expressaria descontente um ser mais obtuso, que tampouco entenderia se os lesse. E por não entender, acreditaria que a sua imbecilidade se propaga no infinito. Entretanto, nos referimos a um imbecil consciente que, por isso, de forma bem natural, passa a julgar saber as coisas através da própria ignorância, e isto, pitorescamente, lhe traz a certeza de um delirante complexo de superioridade. Esta é a razão pela qual se subestima o público, dando-lhe sempre o que há de pior.

Não se têm o que dizer. Muito menos o que ensinar. Mas se tem o espaço, a verba pública, um teatro restaurado através da obra super-faturada e… ah, uma boa luz que revela, no palco, um cenário verdadeiramente incrível. Já que o texto é ruim, a intenção é chocar com vulgaridades que já não chocam mais ninguém. Pois ainda há quem fique chocado com palavras infames e pessoas nuas? O texto é ruim, mas não faria diferença se fosse bom. Já que nada entendem, resolvem se expressar tirando as roupas. Às vezes, menos ousados, contentam-se em pintar o nariz e fazer malabarismos.

Talvez fosse isso que Rousseau considerava quando proclamou que o efeito do desenvolvimento das ciências e das artes não seria positivo à humanidade. Ao contrário, transformar-se-ia num processo de degeneração do homem. Abstraindo toda aquela maluquice do bom selvagem, podemos considerar que o diagnóstico do suíço parece ter algum sentido se invertemos o significado do que seja a arte. Atualmente, o que se convém chamar de arte, não é arte de forma alguma. A idéia mesma de fazer o homem elevar-se procriando o belo, para tornar-se melhor desejando perpetuamente o bem e a verdade, foi substituída pela massificação do homem vulgar que degenera a si mesmo, e junto a inteligência humana. É um engenhoso empenho para nos tornar animais, onde o instinto mais selvagem subrepuja a razão e a felicidade resume-se no pleno gozo do prazer. Mas em algum momento o filho do relojoeiro suíço tenta esclarecer as coisas:

“Todo artista quer ser aplaudido. Os elogios dos seus contemporâneos constituem a parte mais preciosa de suas recompensas. Que fará, pois, para os obter, se tem a desgraça de ter nascido no seio de um povo e nos tempos em que os sábios em moda puseram uma juventude frívola em estado de dar o tom; em que os homens sacrificaram seu gosto aos tiranos de sua liberdade.” *

Liberdade. Mas alguém ousaria vociferar a favor da tirania? No entanto, tornou-se comum o aprisionamento na vulgaridade que sempre exige uma baixeza em servir de forma miserável a uma tirania coletiva. Aí a liberdade pertencente ao indivíduo já está extinta, e já não se pode mais decidir o próprio destino. De qualquer forma ele prefere se entregar, curvar-se por algo que sequer sabe o que é — e deseja ardentemente este desconhecido. Expõe-se ao ridículo, age de forma repugnante, aceita crueldades, torturas psicológicas; jura estar buscando a liberdade plena.

__________
Rousseau, Jean-Jacques. Discurso sobre as Ciências e as Artes, 1749.

Seu IP:
38.107.179.238

ARTIGOS RELACIONADOS:

  1. Sobre o teatro
  2. A arte que reflete a vida
  3. Diálogos
  4. Ligeiras impressões: A música de uma vida, de Makine
  5. A vida é curta; a arte é longa*

Comentário

Uma Resposta para “Invasão vertical dos bárbaros”

  1. Raphael em October 21st, 2009 6:51 am

    Hoje, que o gosto público tocou o último grau da decadência e perversão, nenhuma esperança teria quem se sentisse com vocação para compor obras severas de arte. Quem lhas receberia, se o que domina é a cantiga burlesca ou obscena, o cancã, a mágica aparatosa, tudo o que fala aos sentidos e aos instintos inferiores?

    (Machado de Assis, em 1873)

Comente se for capaz!




*
To prove you're a person (not a spam script), type the security word shown in the picture. Click on the picture to hear an audio file of the word.
Click to hear an audio file of the anti-spam word

Gilad Shalit



O soldado israelita Gilad Shalit foi libertado, após cinco anos e quatro meses refém na faixa de Gaza.

Um acordo entre Israel e o movimento radical Hamas, através de mediação egípcia, permitiu a sua libertação em troca de mil presos palestinos.

Shalit tinha 19 anos quando foi capturado a 25 de junho de 2006 junto à faixa de Gaza por um comando palestino que integrava elementos de três grupos armados, incluindo o braço armado do movimento radical Hamas, as brigadas Ezzedine al-Qassam.
Rodney's Search Widget plugged in.