Aug
18
Uma singela brincadeira com trechos de uma conversa sobre Poesia com mais uma daquelas pessoas que a vida, naqueles instantes de divina inspiração, nomeou para cruzar o meu caminho.
I
– Geralmente, Diogo, defende-se a poesia como a possibilidade literária de se fugir da razão e dar lugar às emoções. Tenho para mim que isso abre margem para viagens imaginativas que podem, futuramente, trazer muito desalento, muita solidão. Repare como os poetas são pessoas que sofrem. A meu ver, é porque embora explodam em sensações, mudando de estado psicológico rapidamente, pulando entre emoções antagônicas, não se esforçam para analisar esses sentimentos e acabam por distanciar-se da realidade. Posso, claro, estar exagerando.
– De forma alguma, Raphael. Concordo com você quanto à fuga da realidade, é um perigo que se corre. Mas eu tento encarar a poesia – e mesmo as artes – como uma conexão direta com a realidade. Mesmo que de uma forma ainda incipiente, que se sente e, ainda diante de todas as evidências, não se consegue explicar. Aí está o contexto artístico, que é transformar em palavras – esculturas, pinturas, ou o que seja – as coisas inexplicáveis, usando alusões, metáforas, etc. Mas sempre com os pés na realidade, porque mesmo o que se sente, de alguma forma existe, embora não seja algo acessível a quem não sente. O Pessoa diz num de seus versos que o poeta é um fingidor, mas talvez estivesse sendo irônico. Só se tem o que escrever quando há um sentimento real, que é percebido, que está claro como o sol, mas ainda faltam palavras que possam comunicar.
– A poesia, a meu ver, é uma técnica maravilhosa de expressão. Capacitar-se para explicar o que observa e o que sente é uma coisa na prosa e outra na poesia. Esta pede muito domínio das palavras, para colocá-las na métrica certa, rimá-las com outras, acrescentar-lhes ritmo. Daí minha desconfiança com a poesia moderna, que aboliu exatamente tudo aquilo que a poesia era: métrica, ritmo, rima, ordem. Virou um texto abstrato, muitas vezes uma prosa com quebras de linha.
– Passou a ser meras rimas, versinhos sobre coisas inúteis.
– Sim, muita poesia flerta com o não saber, com as dúvidas e incertezas. Isso me incomoda um pouco, porque acho que a escrita deveria ser usada mais vezes para inspirar as pessoas a coisas boas, não ao lamento.
– Explique melhor isso…
– Veja, é evidente que Edgar Allan Poe é genial (especialmente em The Raven e Annabel Lee). Seu tom sombrio e seu ritmo são peculiares e muito os admiro. Mas uma coisa é falar da tristeza, da solidão, da tragédia, da morte como inexorável; outra é vitimizar-se diante das paixões.
– Eu creio que, seja na poesia ou nas artes em geral, há sempre um dever com a Educação. Porque o discurso poético parte de um fragmento da realidade para uma forma de explicar essa realidade mesma. O que, afinal, consideramos uma obra universal senão a sua aproximação máxima do que seja uma verdade absoluta? O sofrimento é parte da realidade e o discurso poético que o abarca expõe as causas, seus efeitos, explica o que é este sofrimento, como é esta dor. Mas, de fato, vitimizar-se, embora pareça uma catarse, é nada mais do que uma enfermidade.
– A mim não há nada de errado em escrever uma poesia para dizer o quanto a vida é miserável e o quanto eu não sei como resolver meus problemas. Apenas acho lamentações uma perda de tempo. Eu não quero que minhas palavras sirvam para alimentar o descontentamento, a desorientação e o martírio. Gostaria, sim, que elas provocassem boas sensações, que as pessoas se sentissem enérgicas, fortes, prontas para superar qualquer barreira. Eu nunca vi nada disso no Brasil.
– Mediante tais argumentos, não é fácil achar uma conclusão além desta.
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Recomendo vivamente uma visita ao blogue do nobre amigo Raphael Farinazzo
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Comentário
4 Respostas para “Diálogos”
Comente se for capaz!






Obrigado, Diogo! Vou postar o diálogo lá no meu espaço também.
Em breve, respondo o e-mail pendente e continuamos a conversa.
Grande abraço!
[...] em: Diálogos — R. Farinazzo @ 17:24 Tags: escritor, poesia, poeta Meu amigo Diogo Chiuso postou em seu blog um trecho de nosso diálogo sobre a poesia. Recomendo a [...]
wow! Interessante a discussão de vocês. Mto bem argumentada. Não sei se é pra meter o bedelho, mas como vocês abriram seus textos num espaço “público” vou dar piteco sim (=P) hehehe.
Platão afirma no livro “A República” que para o bem do indivíduo e do estado é necessário que se matem (ou expulsem) todos os poetas. Pra vocês terem uma idéia essa discução de já dá o que falar há muito tempo! ^.^
A poesia é representação da realidade ao mesmo tempo que é uma quebra e uma deturpação da mesma. isso é inegával. Mas ela não é em sua maiora uma “lamentação”. Talvez nossa época seja uma época de lamentações generalizadas (vide a onda EMO que anda por aí), entretanto existem outros tipos de se fazer poesia. Os Cínicos e os Céticos, por exemplo, usavam da própria poesia para satirizar aquele tongo do Platão. Pulando direto pros nossos dias, no Brasil mesmo, tempos ótimos poetas que não são “chorões”. Leminski é um deles e José Paulo Paes é outro que adoro. São poesias pontuais, muitas vezes irônicas e engraçadas (“O pensador de Rodin” de Paulo Paes é um bom e conhecido exemplo)…
Adorei a discução. Espero que eu tenha ajudado em alguma coisa!
Abraços.
http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/poefilo.htm
Espero que acrescente algo.