Assisti – com um pouco de atraso, é verdade – ao debate sobre o aborto, que foi ao ar domingo à noite (22/03) na Rede Bandeirantes, entre o professor de teologia da PUC-SP, Antonio Marchionni, e o médico baiano especialista em Reprodução Humana, Elcimar Coutinho. A priori, manifestou-se a total ignorância dos jornalistas em relação ao tema debatido. E a inépcia se aprofundava a cada uma das suas intervenções. Mas acredito que a qualquer ser razoável, tal fato já deixou de ser objeto de espanto. Basta assistirmos ou lermos os noticiários para constatarmos que tal despreparo se dá em qualquer tema, e não só quanto adentram a ambientes complexos da Filosofia, da Religião, da Ciência e também dos fundamentos jurídicos.

No entanto duas coisas me deixaram intrigado. Primeiro a empáfia dita “cientista” do Dr. Elcimar. Ele propõe que a Ciência seja fonte exclusiva de direito para a Legislação. Ora, as ciências não conseguem explicar-se a si mesmas, afinal têm um caráter restritivo às hipóteses e modelos matemáticos. Isso faz com que ao ouvir um cientista falando de temas relativos à Lógica e à Metafísica, conclui-se que não existe realidade concreta pelo simples fato dele não estar apto a investiga-la. Literalmente para essas pessoas o ser humano é apenas um amontoado de células agindo com algum reflexo condicionado, enquanto, é claro, somente ao “cientista” a auto-consciência é inata, embora não tenham a menor idéia do que isso realmente seja.

Enfim,  os argumentos do Dr. Elcimar são tão pueris que é incontestável o fato dele sequer apreender os conceitos de vida, alma ou mesmo realidade. Ao que parece ele entende alguma coisa sobre o funcionamento do sistema reprodutivo humano, porém não saberia diferencia-lo ontologicamente de uma caneta esferográfica.

A discussão do aborto se avoluma na questão da Essência do ser, mas é algo abstrato demais para os Elcimares. Um cientista honesto admitiria que a Ciência não tem métodos para fazer análises ontológicas. Os princípios da Lógica, que dão suporte a qualquer raciocínio humano, são impossíveis de se provar materialmente, mas isto não é um impeditivo para que eles simplesmente existam. Chega a ser patológica essa coisa de se desassociar da realidade e negar o princípio da identidade, por exemplo. Um objeto não é mais idêntico a si mesmo, mas, sim, aquilo que um grupo de cientistas decide o que esse mesmo objeto será daqui para a frente.

Quanto à segunda coisa que me intrigou, relaciona-se com a primeira intervenção do professor Marchionni no programa. Acredito ter sido uma desatenção um erro da parte dele – talvez pela falta de tempo e interrupções indevidas e inoportunas dos jornalistas – não corrigir a matéria de abertura que atribuía a excomunhão ocorrida em Pernambuco como ato do arcebispo Dom José Cardoso Sobrinho, quando ele apenas comunicava uma decisão do Concílio cuja prática está regulamentada pelo Direito Canônico. Depois, além de insistir que o Vaticano teria desautorizado o arcebispo de Olinda (o que é simplesmente uma mentira) omitiu-se na matéria que, segundo o arcebispo, não fora apresentado nenhum exame clínico comprovando que a vida da menina corria risco, algo exigido pela jurisprudência em relação ao artigo 128 do Código Penal Brasileiro. A imprensa ainda não noticiou que tanto a mãe quanto o pai da menina eram contra o aborto e foram persuadidos com argumentos totalmente subjetivos. Isso talvez explique o que o Dr. Elcimar queria dizer no segundo bloco do programa, com aquela conversa de que o médico deve convencer a pessoa ao aborto mesmo que ela seja totalmente contraria à idéia.

Por fim, achei terrivelmente injusto que se terminasse o programa apenas com depoimentos favoráveis ao aborto e de total condenação à Igreja. Caberia questionar por onde andava naquele momento a tal objetividade jornalística, aquela coisa de ouvir os dois lados da questão, que dizem ser um dos princípios da liberdade de imprensa.

O mais importante, porém, é que hoje tomo conhecimento de uma entrevista do Dr. Edward C. Green, diretor do projeto de pesquisas sobre a prevenção da Aids de Harvard, que é uma das maiores autoridades do assunto, concordando com as declarações do Papa, na África, sobre o uso da camisinha. Antes, é importante relembrarmos o que disse o Dr. Elcimar no dia do debate na Rede Bandeirantes (e transcrevo ipsis literis porque é mesmo muito interessante ver até aonde chega a sua audácia):

“(…) eu acho muito mais grave que o Papa esteja na África defendendo o não-uso da camisinha. Acho que é uma coisa muito mais grave do que a excomunhão que é uma coisa totalmente inócua. O que interessa é impedir que o indivíduo faça o filho. Se a Igreja proíbe o uso da camisinha achando que é um pecado mortal nós estamos liquidados. Isso é um contrasenso total e absoluto. O Papa esteve na África, hoje, que é um continente condenado pela Aids. As pessoas pegam Aids tendo relações sem camisinha. Ele prega no lugar da camisinha a abstenção sexual, na África! Quer dizer, eles querem que as pessoas sem educação se abstenham porque ele disse que eles não devem ter relações sexuais, quer dizer, somente no casamento. Numa região do mundo onde raramente tem casamento, existe poligamia, existe uma liberdade sexual muito grande, ele [o Papa] pregar que o uso da camisinha é um pecado mortal, eu acho que isso é muito mais grave do que isto que estamos discutindo aqui [o aborto]“.

Antes de mais nada é razoável concluir que o Dr. Elcimar extrapolou a sua especialidade, passando a conjeturar, sem nenhum dado concreto, acerca da Sociologia, Antropologia e da Infectologia. Depois, o argumento de que a proposta de abstenção sexual no combate à Aids é um contrasenso total e absoluto é refutado pelo Dr. Edward Green, que afirma em entrevista recente que [quanto à proposta de abstenção sexual no combate à Aids] “…o Papa está certo!”, além de  as mais recentes evidências empíricas demonstrarem que a redução de parceiros sexuais é o mais importante dos comportamentos relacionados com a redução de infecções pelo HIV.

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A entrevista completa do Dr. Edward Green está aqui!

Importantíssimo para entender ainda mais sobre o assunto é ouvir a última edição do True Outspeak, onde o filósofo Olavo de Carvalho explica, respondendo a um ouvinte, o porquê da Ciência não estar habilitada a palpitar em questões da Metafísica.

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  1. Ciência vs. Religião

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Gilad Shalit (Nahariya, 28 de agosto de 1986) é um soldado israelense capturado em Kerem Shalom na Faixa de Gaza por militantes palestinos em 25 de junho de 2006.

Gilad Shalit é refém do Hamas há mais de mil dias.
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