1435295A música de uma vida, de Andrei Makine – Cia das Letras, publicado em 2001 com tradução de Eduardo Brandão.

Aberto aleatoriamente na página 75, narram os dois primeiros parágrafos da página:

Stella veio encontrá-lo, ficaram instantes espiando o furor branco além dos vidros. Ao entrar, ela havia fechado a porta, e era abafada pelo corredor interminável que chegavam até eles a voz da mãe chamando a empregada: “Vera, passe o pano de chão na entrada, esse motorista encheu todo de neve outra vez”. Stella fez uma careta, esboçou um movimento como se tivesse querido pegar aquelas palavras no ar, depois se inclinou subtamente para Aleksei, sentado, a xícara de chá nas mãos, e o beijou. Ele sentiu os lábios dela na testa, na marca da cicatriz… No corredor, ouvia-se o esfregar do pano no chão do assoalho.

Na manhã seguinte, ele partia com o general, que ia inspecionar várias guarnições no Norte.

Um final (claro que não vou contar) digno de um clímax cinematográfico. O livro narra a estória de Aleksei Berg, um jovem pianista na União Soviética de Stalin. Prestes a estreiar um concerto, passa a ser perseguido pela polícia política após a prisão da sua família. Era a época da caça aos intelectuais que não concordavam com os rumos da Revolução (os idiotas úteis dos quais falava Yuri Bezmenov).

Berg salva-se de ser capturado por um ataque do front alemão que esboçava uma invasão em plena Segunda Guerra Mundial. Enterra sua identidade em meio aos corpos dos soldados que lhe serviram como disfarce. Parte dalí assumindo a vida de um daqueles mortos e é reincorporado à tropa. Mais tarde torna-se motorista do general, de quem salva a vida após mais uma investida alemã. Passa a acompanhá-lo levando consigo o tormento de viver uma vida que não é a sua, em um país que já não é mais o seu e, principalmente, imaginando a situação dos familiares aprisionados nos campos de concentração siberianos.

A estória nos arremessa diretamente ao maior dos dilemas que afligiu o povo russo: a escolha entre se adaptar a um ambiente ditadorial e assassino, ou se embrenhar em uma fuga definitiva para bem longe do Comunismo. A vida de Berg narra de alguma forma, um pedacinho da vida de cada um dos dissidentes do regime stalinista, a quem o exílio fora decisivo para a manutenção da integridade física e a liberdade dos pensamentos. E nos conta como pode ser doloroso buscar tal liberdade. Mas que, por outro lado, encontrá-la é, definitivamente, uma catarse.

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Comentário

Uma Resposta para “Ligeiras impressões: A música de uma vida, de Makine”

  1. jansy mello em July 9th, 2009 2:34 pm

    Encontrei vários pontos em comum entre idéias e temas de Nabokov (mariposa, esquilo, decifrar um padrão complexo da realidade da “plexed artistry” de John Shade em “Fogo Pálido”, reminiscências de infância) e no livro de Makine, “A música de uma vida”. Estava tentando encontrar algum texto que relacionasse os dois russos, ambos apresentando uma especial mestria em outra língua que não a materna, mas apenas encontrei a ligação, como feita aqui, sem maiores detalhes. É possível obter mais informações?
    ———-

    Jansy, infelizmente não lí o Shade, portanto, tenho que me abster diante da minha ignorância. No entanto, talvez essa relação que procuras pode estar no fato deles terem, de certa forma, tornado-se apátridas, ao mesmo tempo que tentam recriar um vínculo com a pátria-mãe que não existe mais. Os escritores russos do século XX compromissados com a liberdade, tiveram que fugir do comunismo soviético para a manutenção da integridade e a liberdade dos pensamentos. Isso eles tinham em comum e, talvez, a Nina Berberova seja a quem mais explicitou nas letras, esse traço trágico característico dessa geração de autores russos pós-Revolução.

    Abraço,
    Diogo

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Gilad Shalit



O soldado israelita Gilad Shalit foi libertado, após cinco anos e quatro meses refém na faixa de Gaza.

Um acordo entre Israel e o movimento radical Hamas, através de mediação egípcia, permitiu a sua libertação em troca de mil presos palestinos.

Shalit tinha 19 anos quando foi capturado a 25 de junho de 2006 junto à faixa de Gaza por um comando palestino que integrava elementos de três grupos armados, incluindo o braço armado do movimento radical Hamas, as brigadas Ezzedine al-Qassam.
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