Mar
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Há dias venho pensando numa forma de escrever o que segue sem parecer pedante ou mesmo sugerir uma superioridade moral. Apenas sou mais um a procurar respostas enquanto há gente preocupada com novas tendências para ser cool e ter a admiração de terceiros. Opa! Já estou parecendo pedante e sugerindo uma superioridade moral? Não, a frase anterior pretende ser apenas o princípio de uma análise rasteira sobre algo que ultimamente me incomoda bastante e que ainda não tenho uma conclusão. Talvez fique mais fácil se eu confessar que não tenho mesmo nenhuma superioridade moral ou intelectual e seja até mais imoral e burro do que muitos dos que lêem (isso, ainda não me adaptei às novas regras ortográficas) este rascunho de pensamento.
Não sei se posso interligar os fatos da maneira que pretendo, mas essa crise econômica ganha ares de depressão, no sentido de aprofundar as frustrações com o presente. E isso parece um fim de um ciclo, sem garantias de que se iniciará um novo. O que se expôs nos últimos, sei lá, 20 anos configurou-se na idéia de que o mundo deve ser mudado, refundado. E que as tradições devem ser esquecidas junto com toda a sabedoria custosamente adquirida pelos nossos antepassados. Foram erros e acertos que de alguma forma moldaram este mundo, mas que parecem não importar, tornaram-se irrelevantes para as vidas das pessoas modernas.
Ao mesmo tempo em que tais pessoas (sobretudo os mais jovens) se dizem cada vez mais interessados por uma modernidade mundana com todos os seus problemas e injustiças, voltam-se para si mesmos. Seria bom se tivessem interessados a aprofundar o conhecimento do próprio ser antes de enfrentar tais problemas e injustiças. Mas quando encaram-se, o fazem para saudar um hedonismo estúpido, uma satisfação de vontades idiotas que na maioria das vezes são totalmente sem significação literal.
E é mesmo na linguagem que nos damos conta de que os termos atualmente mais importantes são vazios de significados. Se falo pedra, sentimento e liberdade, não pairam dúvidas quanto aos objetos a que me refiro. Mas dizendo realização profissional, desigualdade social, aquecimento global ou mesmo felicidade, nada se entende sem uma longa explicação conceitual recheada de subjetividades que expressam somente a incerteza na comunicação. Tudo isto, como podemos observar, não impede que alguém tome um destes termos não-significativos para servir de fim supremo as suas vidas.
Uma coisa interessante – e que poucas pessoas se dão conta – é que tudo o que desejamos custa um pedacinho da nossa liberdade. Para se conseguir algo devemos abrir mão de alguma outra coisa mesmo que parcialmente. Pretendendo fazer uma viagem, tenho que considerar que devo abrir mão do dinheiro que poderia ser gasto com outra coisa ou mesmo me fazer falta futuramente. Se quero estudar, tenho que abrir mão de uma parte do meu tempo para me dedicar ao estudo. E no final tudo não passa de uma questão sucessiva de escolhas pelas quais devo pagar algum preço por desejar algo concreto. Mas o que se vê é um anseio de coisas abstratas, distituídas de significação literal, como “realização profissional” ou “qualidade de vida”.
Os cinco parágrafos anteriores foram construídos para tentar circundar a idéia principal que se arriscou a ficar completamente exposta nas entrelinhas: não estamos no comando das coisas e sequer das nossas próprias vidas. Porque a realidade independe das nossas vontades e ainda menos da nossa compreensão. O máximo que podemos fazer – para termos uma existência com algum sentido concreto – é tentar conhecer alguns aspectos da realidade e entender um pouco melhor as escolhas que fazemos a cada minuto. Para isto é necessário dar significado literal às coisas que acreditamos ser importantes para a nossa existência. E pode ser muito doloroso descobrir que tudo não passa de seduções, de coisas perfeitamente inúteis. Por outro lado, pode ser uma oportunidade única para a restituição de toda àquela liberdade despendida.
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Comentário
4 Respostas para “Sobre as seduções”
Comente se for capaz!











Já tinha pensando várias vezes nesse paradoxo da conquista e da perda de liberdade. Tudo na vida tem um preço, um sacrifício, definitivamente. Mas, na maioria das vezes, o que se ganha lá na frente é muito mais recompensador do aquilo que deixamos para trás =)
Adorei o texto!
bjo
Ps. What the hell were you awake 6.30 am, pls?
Liberdade. Ontem mesmo estava relendo uma anotação antiga:
Você é livre para fazer o que quiser. O mau uso da liberdade não o isenta das seguintes responsabilidades: i) as conseqüências do seu exercício de liberdade devem limitar-se a si próprio, ao contrário do sujeito que bebe todas e vomita no colo do amigo ao lado; ii) reconhecer-se como princípio e fim deste exercício, lembrando sempre que tudo o que lhe acontece é conseqüência de seus hábitos.
Soa óbvio, mas é bom dizer isso com todas as letras. Há pessoas demais que se entregam aos vícios, maltratam o corpo e esperam todo tipo de apoio das pessoas ao redor — financeiro, legal ou moral. Elas se vêem como campeãs da liberdade e crêem que merecem não apenas o apoio da sociedade, mas também medalhas e reverência. Não passam de bundas-moles. Nada mais abominável do que ser corajoso para atos abomináveis e ser um bunda-mole para todo o resto.
Tava inspirado heim, caprichou!
Eu queria comentar mas as palavras fogem e só fica um pequeno conjunto martelando em minha cabeça. Considerando a superioridade infinita do autor, vos poupo das minhas palavras e registro algo mais útil:
“Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?” Mateus 16:25-26
Sigo te amando.