Depois de ler a entrevista do monsenhor Michel Schooyans – sobre um assunto há anos debatido entre nós, ditos olavetes, enquanto os uspianos e outros espertinhos se ocupam com análises da cultura da periferia e o jornalismo de falsificar a História –, lembrei-me de uma antiga entrevista, que publico adiante, que fiz para o antigo site O Expressionista, com o professor Nelson Lehmann da Silva sobre o seu livro A Religião Civil do Estado Moderno. Com Schooyans, conversa-se sobre como os burocratas da Nova Ordem Mundial pretendem expurgar os direitos fundamentais do homem, para substituí-los por uma legislação positiva a ser compilada por uma ou duas cabeças megalomanas. 

Nada mais é do que a instauração de um estado mundial absolutista, através de leis supra-constitucionais, negando os direitos inatos aos homens, conquistados através de não menos do que alguns milhares de anos.

A história ainda nos mostra – antes de ser mudada pelos jornais diários que substituem os livros – que nenhuma civilização se pôs de pé sem uma religião moldando os princípios que vieram a se tornar direitos fundamentais. Atente que direitos e garantias fundamentais são aqueles pontos imutáveis na doutrina jurídica, que garante à vida, à igualdade e o respeito mútuo entre os povos. Monsenhor Schooyans nos mostra como esses “novos direitos” cobiçados pela Onu e seus adeptos da Nova Ordem Mundial, pretendem revogar os direitos fundamentais e inalienáveis garantidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Tais idéias aspiram que daqui em diante a soberania das nações vire pura fachada, já que as Constituições modernas abrigam como legislações acima delas mesmas, os tratados e convenções internacionais assinados pelos países.

“É uma coisa pavorosa o que está quase acontecendo. E vai mais longe. A Corte Penal Internacional, que foi instituída há alguns anos, vai ter como área de competência julgar as nações ou as entidades que se recusarem a reconhecer esses “novos direitos” inventados ou a serem inventados. A Igreja Católica é um dos alvos possíveis dessa Corte Internacional. Já houve quem dissesse há anos que o Papa João Paulo II poderia ter sido intimado a comparecer no Tribunal Internacional por se opor a um “novo direito”, o da mulher ao aborto”, constata Schooyans.

Claro que é um assunto que deveria estar sendo discutido muito além dos foruns dos “olavetes”. Todas as faculdades de Direito deveriam debruçar-se sobre o tema, mas preocupam-se iminentemente com cursos para aprovação do exame da ordem dos advogados. Em suma, são duas entrevistas que se interligam. Imprescindíveis para entender os rumos que o mundo toma, enquanto todos esperam os milagres após a posse desse ser misterioso, B. Hussein Obama.

Entrevista com o professor Nelson Lehmann

No seu livro “A Religião Civil do Estado Moderno”, o sr. afirma que a ideologia está se tornando – ou já se tornou -, o que, outrora, foi a fé cristã. Como é isso?
A tese de meu livro não é inédita. Há uma extensa literatura que ocupa-se do fenômeno. Dentro disso eu procuro demonstrar que o Estado, particularmente o moderno Estado “social” e totalitário, arroga-se atributos análogos aos do fenômeno religioso. Política e Religião sempre aparecem como fenômenos indistintos nas grandes civilizações da História. O poder é um só e conjuga o céu e a terra. O Egito, a Mesopotâmia, a China, a América pré-colombiana, bem ilustram este fato. Religião é a idéia que dá coerência e identidade a um coletivo.  O Cristianismo, com prenúncios no Judaísmo e no mundo filosófico grego, inaugura a distinção entre estas duas esferas. A “Cidade de Deus” de Agostinho ( A.D. 410) é a formal explicitação desta postura, que marca desde então nossa cultura ocidental.

Neste caso podemos dizer que com a Reforma e a Contra-Reforma abriu-se as portas para a criação do Estado Moderno, com essas ideologias como religiões civis?
A Reforma foi inicialmente impulsionada pela vontade de desvencilhar a Igreja do poder político, mas acabou por comprometer-se ainda mais com os nascentes Estados Nacionais. O protestantismo surge como reafirmação da tese agostiniana. A Igreja e o Poder se interpenetravam. Era preciso reformar. Mas, no processo revolucionário, os reformistas acabam por se comprometer ainda mais com os estados, agora nacionais e pulverizados.

Mas o que levou a esse desvencilhamento?
A Idade Média se caracteriza pela tensão bipolar, às vezes conflitiva, entre Estado e Igreja, que reflete a polaridade Política e Religião. Todo o pensamento medieval reitera a distinção, e sua preocupação constante é definir as competências entre as duas autoridades, as duas Leis, as duas cidadanias. Na praça central das cidades temos o Palácio e a Catedral, um frente ao outro. Disto surge a consciência inédita da relatividade do poder político, que aflora no ideal democrático moderno . O poder estatal perde seu caráter absoluto pois que o individuo tem acesso direto à divindade. Em nome de uma lei, ou autoridade maior, o Estado pode ser desobedecido.

Então o Estado moderno é um tipo de fusão do poder político com a imagem e os santos religiosos?
A tentação de voltar a fundir as duas esferas é permanente e ressurge a cada revolução. A Revolução Francesa, ateia e anti-clerical, introduz o culto do Estado e da Constituição, sua escritura sagrada. Assim farão o Nazismo e o Leninismo. As utopias totalitárias fornecem inúmeros exemplos de adoração do Estado. Sempre entram em choque com as igrejas e acabam por arremedar suas cerimônias litúrgicas. Ilustram tais tendências o culto aos heróis da pátria ou partido, seus hinos e ícones, bandeiras e símbolos, desfiles e mausoléus, feriados e juramentos. Nos satélites soviéticos introduziram-se “sacramentos” como batismos cívicos, “confirmações”, “casamentos” e “funerais” diante de hierarcas estatais. Até pouco tempo, na Praça Vermelha em Moscou, os “fiéis” visitavam reverentes o cadáver mumificado de Lênin, exatamente como cultuavam os santos na era tzarista.

Mas essas ideologias pregam mudanças radicais da sociedade e do modelo de Estado. E isso se deu implantando tais teorias tanto pela força quanto por meios eleitorais. Entretanto, essas pregações revolucionárias visam destruir o estado vigente ao ínvés de apontar soluções práticas e racionais. Isso não é um retrocesso?
Retrocesso sim, no sentido de voltar a introduzir a sacralização ou absolutização do poder político.

Nesse sentido as ideologias nada mais são do que engodos para iludir as massas e fazê-las seguirem e apoiarem regimes totalitários e ditadores megalomaníacos?
Sim. Em parte a ideologização é intencionalmente incutida pelos intelectuais burocratas, expressa uma natural propensão à lei do menor esforço intelectual.

Mas a idéia de que a educação é primordial para o desenvolvimento de um país é algo comum hoje em dia. Em contrapartida, há algo que incomoda: o povo alemão, culto e gerador de grandes filósofos, sucumbiu às idéias fantasiosas do nacional-socialismo de Hitler.
A tese universalmente consensual de que educação “é tudo” não resiste ao menor exame. Seria uma condição relativamente necessária mas não suficiente. A União Soviética alcançou altos níveis científicos. Cuba diz ter o melhor sistema educacional. A Índia exporta cientistas. Mas não são exemplos de prosperidade. Nem mesmo de igualdade. A condição decisiva para a prosperidade é a liberdade.

Eu sinceramente não consigo entender como, mesmo com exemplos da história da esquerda mundial, das tentativas frustradas da implantação do socialismo, com as milhares de vítimas desse regime tão cruel e sangüinário quanto o nazismo, essa ideologia ainda carrega a imagem da tal “justiça social”, de um regime justo e igualitário, sendo que a história sempre nos mostrou o contrário.
Interpreto o fenômeno da persistência da fé socialista, ante todas as evidências contrárias, como um comportamento que chamo de fixação neurolinguística. Os utópicos laboram com os mesmos elementos encontrados na literatura universal, nos mitos e lendas , nas novelas das oito, nas fábulas infantis como o Maniqueísmo: estamos numa guerra entre os bons e os maus, “nós” sempre somos as vítimas dos perversos; ou do Bode Expiatório, em a culpa das frustrações é remetida a algo ou alguém. Sem falar da Inveja, ou síndrome de Caim, não suportando a melhor sorte de outrem. Por fim a Meia-Ciência onde a realidade é explicada de forma simples e acessível e consoladora. Isto explica o sucesso da fórmula socialista

Hoje temos mais do que consagrado o Estado-Nação soberano, com um poder nunca imaginado anteriormente. Porém, o mesmo estado-absolutista se mostra burocrático e incompetente, tendo, por isso, jogado no “colo” das sociedades-civis, a responsabilidade de seu papel assistencialista. Como o sr. analisa isso?
Hoje, após desilusões com o Estado Providência, certas sociedades ensaiam retomar funções que antes lhes cabiam. É claro que os custos da máquina administrativa e da “nomenklatura” deveriam acompanhar tal tendência.

O embaixador Meira Penna, no livro “A Ideologia do Século XX”, aponta a origem dos regimes totalitários como o nazismo e o fascismo, na fusão das idéias nacionalistas com as socialistas. O sr. concorda com essa análise? Acredita que ainda sofremos as conseqüências dessa fusão?
À partir do séc. XIX o Estado passa a assumir funções antes típicas das igrejas: educação, saúde, previdência, artes, etc. Conseqüentemente passa a controlar cada vez mais todas as esferas da sociedade e da vida individual. O nacionalismo é uma particular manifestação da religiosidade moderna, inspirador de arroubos poéticos como de cruéis genocídios. O detentor do poder incute a emoção nacionalista por meio do sistema educacional, via de regra mesclada de doutrinação igualitária.

Esse tipo de estado paternalista originou-se das idéias de Rousseau?
Nào. Entendo que o Estado Social moderno tem suas origens na Alemanha de Bismark , século XIX

E essa Nova Ordem Mundial que propõem ações que visam enfraquecer a soberania das nações, abrindo as fronteiras rumo a um governo mundial. Isso não ditará o fim da ideologia nacionalista e do Estado-Nação?
A emoção nacionalista, no sentido de soberania político-econômica, tende a desaparecer. Hoje um jovem na Europa se identifica mais como europeu do que como alemão ou francês. A identidade cultural-regional, porém, parece-me que se valoriza. Quanto a um “governo mundial”, direi ser inevitável uma padronização universal, como já se verifica com as leis, as moeda, medidas, linguagem, documentação etc. O que não implica na extinção de expressões individuais na esfera cultural como religião, arte, literatura…

Toda a “confusão ideológica” que influenciou as relações políticas internacionais do século XX, teve grande influência no Brasil, principalmente com o integralismo e o getulismo. Estas duas vertentes ideológicas ainda influenciam as nossas relações políticas?
Não creio que caudilhismos ou integralismos ainda tenham influencia em nosso meio. O que me chama a atenção é uma dicotomia – ou “gap”- entre o que as pessoas dizem e aplaudem e o que fazem na prática. Todos são contra o que chamam de capitalismo e imperialismo americano, no entanto comportam-se da maneira mais oportunista e copiam o “politicamente correto” dos odiados yankees.

É interessante analisar que na última eleição, a Fiesp e a maioria dos empresários que clamavam por baixa de Juro e da carga tributária, tenham decidido conseguir isso através de um governo de esquerda, que, em toda a história, pregou o fim da propriedade privada e a maior intervenção estatal na economia. Qual a razão disso?
Paradoxos são freqüentes na política. Só um governo de “esquerda” esta legitimado a fazer política de “direita”. E vice-versa. No presente caso o senhor Lula surpreende. Mas o paradoxo é tão gritante que qualquer um desconfia. A esquerda responsável sabe que sua receita sempre esteve errada. Mas também sabe que sua receita dá votos. Então o segredo do sucesso é dizer uma coisa e fazer outra. O que importa é chegar ao poder, e nele se manter.

E qual a sua opinião sobre essas reformas propostas pelo governo Lula?
As reformas em pauta são em grande parte retóricas. Diminuir o custo do Estado seria decisivo!

O sr acredita que ideologias e Estado como Religião civil são coisas que estão sendo superadas? Ou ainda teremos um bom tempo desse modelo regendo nossas relações políticas e sociais?
Um mundo desejável e possível seria aquele habitado por indivíduos livres e responsáveis. Mas, infelizmente, muitas gerações ainda passarão até as ilusões da Religião Civil se dissiparem.

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Aqui a íntegra da entrevista com o monsenhor Michel Schooyans

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Free Gilad



Gilad Shalit (Nahariya, 28 de agosto de 1986) é um soldado israelense capturado em Kerem Shalom na Faixa de Gaza por militantes palestinos em 25 de junho de 2006.

Gilad Shalit é refém do Hamas há mais de mil dias.
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