Nov
27
No Brasil a pessoa mais bem informada sobre o Oriente Médio é o correspondente do IG, Nahum Sirotsky. Queria ter postado este texto antes, mas também evitar que este blog recém-inaugurado ficasse pautado somente com assuntos do Oriente Médio.
Ao que parece, é tarde para esse tipo de preocupação.
No entanto: há possibilidade de ser mais claro do que isso?
O incompreendido Oriente Médio
17/11 – Nahum Sirotsky, correspondente iG em Israel
Pelo noticiário internacional verifica-se o quanto se insiste que Obama atribua prioridade máxima às questões do complexo Oriente Médio. Os “especialistas” sabem de tudo, menos o principal: que os países da região são saladas de povos e nações, que alface não é tomate, que a questão é descobrir como eles podem conviver pacificamente.Bush e o governo do Iraque acertaram um prazo para a saída da tropa americana. O Iraque, invenção inglesa, é junção de grupos incompatíveis: os sunitas, os xiitas e os curdos. Saddam Hussein controlava o país com impiedosa mão de ferro.
O Islã se expressa numa única frase: Alá (Deus) é um só e Maomé é o seu profeta e mensageiro. Os sunitas são a maioria e seguem as tradições herdadas de Maomé. Os xiitas aceitam-nas e acrescentam a veneração a Ali, genro do profeta morto e degolado como o quarto Califa (rei) numa batalha. É heresia. A dúvida é se a convivência das seitas num único país será possível sem autoritarismo, ou implodirá na democracia que vem sendo implantada.
Complexo demais é o conflito israelense-palestino, cuja solução pela criação de um Estado judeu e outro árabe foi prevista em 1947. A resolução da Assembléia Geral das Nações Unidas determinou partilha do que sobrará do que se conhecia como Palestina. Mas o Estado palestino independente não nasceu por uma série de fatores de origem árabe e judia.
Em 1967 Israel ganhou a Guerra dos Seis Dias contra Egito, Síria e Jordânia, quando ocupou Cisjordânia, Gaza, Jerusalém e outros territórios árabes. Devolveu territórios a Egito e Jordânia, mas não foi possível acordo com os palestinos. O general Rabin, primeiro-ministro israelense tentava acordo quando foi assassinado por um jovem fanático judeu. O processo foi interrompido. O presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, tentou pessoalmente promover paz. Fracassou. George W. Bush tentou durante seus oito anos de governo. Não conseguiu. Os lados mantêm conversações, mas não se chega a uma conclusão.
A demanda palestina é que Israel recue até as fronteiras que tinha em 1967, antes da Guerra dos Seis Dias. Querem Jerusalém onde está a colina do Templo de Salomão da qual Maomé teria ascendido a Deus para receber as primeiras revelações do livro sagrado dos muçulmanos, o Corão. Querem toda a Cisjordânia na qual Israel construiu cidades, indústrias, agricultura e se assentaram cerca de 350 mil judeus. E querem o reconhecimento do direito de retorno de todos os palestinos – hoje transformados em muitos milhões – aos locais dos quais saíram desde a primeira guerra. Não se chega a entendimento.
Para os muçulmanos, a terra onde pisou Maomé é terra sagrada. Pela tradição, ele pisou na colina do Templo. Logo, toda a terra onde existe Israel é sagrada. Daí o Hezbollah xiita libanês, o Hamas sunita palestino, entre outros, terem em seus programas o compromisso da destruição do Estado judeu por todos os meios possíveis.
O Fatah, organização de libertação palestina cuja liderança negocia com Israel, admite conviver com o Estado judeu se atendidas suas reivindicações. O atual primeiro-ministro interino de Israel admite a hipótese do recuo para as linhas de 1967, preservando-se cerca de 3% da área onde se concentram os centros construídos pelos judeus lá assentados. Mas ele não concorda com o direito de retorno, que seria o fim de Israel por meios políticos, pois os árabes logo seriam maioria.
Os focos palestinos de resistência, como o Hamas, que domina em Gaza e está rompido com o Fatah, não concordam sequer em reconhecer o direito de Israel a existir. Tem-se duas micro-Palestinas, uma complicação a mais. E grupos extremistas israelenses, por nacionalismo ou crença religiosa, também se opõem a quaisquer concessões e ameaçam resistir com violência.
A maioria quer paz e tranqüilidade. Até entre os colonos, muitos são favoráveis a um recuo da linha de fronteira, como ouviu Ethan Bronner, do “The New York Times”. O pacificador terá de promover a paz entre palestinos, o que o Egito tentou e desistiu, um consenso sobre um acordo possível com Israel, um consenso das lideranças políticas israelenses que terão de impor obediência aos extremistas. Mesmo Obama terá de investir muito tempo de seu governo nessa questão.
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