Nov
25
Em relação à literatura tenho predileção à poesia. No entanto, confesso não desfrutar um farto conhecimento sobre o assunto. Ainda assim, há pouco organizava meus livros (que ainda se encontram meio a uma tremenda bagunça) e achei uma análise estilística feita por Joaquim Mattoso Câmara Jr. sobre o soneto “A Carolina”, de Machado de Assis. Em verdade não me recordo a quanto tempo esta fotocópia já quase apagada andava perdida na bagunça. A única coisa de que me lembro foi a sensação de descobrir que a poesia é algo muito além de versinhos rimados, como eu boçalmente imaginava.
O poeta combina pensamentos cognatos e paralelos: um nos quartetos, outro no primeiro terceto, enquanto um terceiro pensamento, que é a essência do pequeno poema, se consubstancia finalmente no último terceto.
Recitemos a produção, comparando-a com o esquema assim depreendido:
A) Visita à sepultura com as idéias que acompanham esse gesto de saudade e carinho: a evocação da felicidade e a afirmação de uma lembrança e afeto que não mais se apaga ou sequer desfalece:
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração de companheiro.Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.B) Oferta flores, como símbolo dessa saudade, que assim se concretiza num gesto ritual:
Trago-te flores, restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.C) Finalmente, o conceito de que o poeta está morto para o mundo, e a sua vida física se prolonga automaticamente pelo impulso de uma força vital que desapareceu:
Que, se eu tenho os olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.Mas não é tudo. Não se resume nesta análise o plano complexo do soneto.
O poeta articulou sutilmente a parte C com a parte B, tirando-a expressão, aparentemente secundária, de que ele está tão morto quanto a sua Carolina. Digo “aparentemente secundária”, porque o termo está colocado em meio de frase e como primeiro elemento de um conjugado copulativo, em que predomina formalmente, portanto, o segundo qualificativo separados.
Há a intenção de provocar a perplexidade a posteriori do leitor, cuja atenção desliza até separados e, depois de aceitar essa idéia self-evident, há de retomar, sem querer, para o paradoxal adjetivo mortos, que o antecede. “Mortos, por quê?” Assim concentrado num novo conceito, que obviamente tem de intrigá-lo, está ele preparado para receber o impacto de pensamento final, introduzindo ao último terceto para um que de valor casual.
Temos, assim, – não um desdobramento que regularmente vai ascendendo para uma idéia ápice -, mas um primeiro pensamento concluso ( a evocação da felicidade perdida e a lembrança perene da mulher amada), um segundo que o ilustra numa concretização simbólica, e, saindo de um elemento aí lançado quase ao acaso, um pensamento final, que transfigura o poema e lhe dá a substância definitiva.
É nesta forma intensa e no seu contraste de um plano natural de um soneto, que me parece estar, estilisticamente, a significação da pequena jóia poética que acabamos de rapidamente apreciar.
- Joaquim Mattoso Câmara Jr. (Revista do Livro, n. 5, p. 71-73)
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Comentário
Uma Resposta para “Estilística: um soneto de Machado de Assis”
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Bendita hora em que encontrei isso aqui! Hoje vou fazer uma apresentação sobre Estilística na Universidade. Daí, já sabe…
Obrigada!